Homenagem Dr Gamarra

No dia 21 de novembro comemora-se o Dia da Homeopatia. O grande homenageado neste ano é o médico homeopata Javier Salvador Gamarra, fundador da Associação Médica Homeopática do Paraná ( falecido em 06 de novembro de 2014 em Curitiba). “Imenso é o legado que deixou dentro da homeopatia,  num trabalho diuturno de anos a fio, semeando-a no Paraná, no Brasil, em diversos países da América do Sul e no mundo, um verdadeiro Titã”, conta o presidente da AMHPR, Jorge Ricardo dos Santos.

“Dr. Gamarra era dotado de uma inteligência superior e tinha uma grande capacidade de estudo e trabalho, qualidades  de mestre. Sabia muito bem discernir o que era mais importante para a escolha do medicamento mais acertado para cada paciente homeopático. Formou muitos dos atuais mestres da homeopatia brasileira, que  beberam e se nutriram dessa fonte chamada Gamarra. Sua importante e forte contribuição, seguramente ajudou em muito a alavancar a homeopatia em todo o país sendo dever de todos nós, seus discípulos, herdeiros desta maravilhosa arte, dar continuidade ao seu maravilhoso e diligente trabalho.  O Brasil deve a este grande homem de origem paraguaia, uma eterna gratidão, pois sem seu pujante e corajoso trabalho, doado a todos nós, não teríamos a homeopatia que temos hoje em nosso país” , enfatizou o presidente.

O médico homeopata Roberto Pinotti também esteve ao lado deste mestre por muitos anos e  destaca sua importância no desbravamento da homeopatia, numa época em que ainda não era reconhecida como especialidade médica no Brasil, enfrentando todas as adversidades e superando todos os obstáculos, como médico e como professor. Segundo ele, Dr Gamarra contribuiu em muito na multiplicação do número de homeopatas em todo o Brasil, ao criar  inúmeros cursos de especialização a partir do seu núcleo de Curitiba.  ” Pessoalmente, tenho com ele uma dívida de gratidão eterna pois durante um quadro de dor abdominal aguda e severa, através da sua prática homeopática, me devolveu o estado de saúde em poucas horas”, relata o médico.

A relação com seus pacientes também foi de dedicação. “ Sempre atento, preocupado, quando telefone tocava, ele atendia sem pestanejar, fosse sábado, domingo, na hora do almoço, madrugada. Estava sempre à disposição. Muitas vezes saía tarde da noite para ir visitar ao pacientes em crise no hospital. Algumas vezes passeios foram adiados ou atrasados para que ele pudesse dar atenção a alguém doente”, enfatiza seu filho Javier Salvador Gamarra Junior, que seguiu na homeopatia como farmacêutico homeopata. Junior conta um caso de uma criança, que adoeceu em um feriado (febre de 40,5 °C) e tarde da noite sendo chamado para manipular um medicamento para ela, enquanto seu pai a atendia em sua sala de consultas. ” Ele me chamou ao consultório. O medicamento que fiz, ele administrou ao pequeno, que logo após receber as gotinhas começou a acalmar o choro convulso em que se encontrava e melhorou, diminuindo a febre e se acalmando. Generosidade e cuidado amoroso para seus pacientes o tempo todo. Também dava “broncas” nos pacientes quando eles não seguiam suas recomendações, mas sempre naquele sentido de “paizão” atento, cuidadoso e exigente. E os pacientes tinham verdadeira adoração por ele”,  concluiu.

Continuar o legado de seu pai é um desafio nada simples em sua opinião. “Precisamos  manter um trabalho forte de manutenção e fortalecimento da Escola de Homeopatia de Curitiba, herdeira da primeira instituição de formação de homeopatas do Estado, a AMHPR (1977) e o ambulatório da Escola, com o sistema de atendimento com sua finalidade social e educacional”, sugere.  Fortalecer e ampliar o ensino da Homeopatia  em todo o país, especialmente no Paraná, seja na inserção acadêmica com a criação de ligas de homeopatia, onde os acadêmicos de saúde se reúnem para aprofundar seus conhecimentos na área ou mesmo despertar o interesse daqueles que não a conhecem. Ampliar a inserção da Homeopatia no SUS. Estas são ações que meu pai certamente apoiaria, concluiu.

“ Ter um pai tão dedicado à causa da homeopatia  só pode me trazer muito orgulho. Quando era criança íamos muitas vezes fazer um passeio de carro diferente, na verdade o pai ia atender pacientes que necessitavam de atendimento urgente em suas  residências, geralmente à noite ou final de semana e acredito que ele nos levava, pois era uma forma de estar junto da família”, relata Delphine Gamarra, sua filha. Nossa casa desde sempre era um local de encontro e estudos de homeopatia, vez por outra havia um estudante de homeopatia hospedado, passou sua infância ouvindo falar de nomes de medicamentos, de sintomas, onde as conversas que seu pai tinha com seus amigos,  que eram homeopatas, eram sempre sobre a doutrina homeopática, sobre estudos e descobertas lembrando da sua alegria quando a homeopatia se tornou uma especialidade médica no Brasil.
“Quando alguém via meu sobrenome e me perguntava se eu era parente do Dr. Gamarra e eu dizia que sim, as pessoas sempre tinham alguma história de agradecimento, pela sua cura ou de um ente querido. Só posso dizer que meu pai conseguiu transmitir a mim, seu amor pela homeopatia, e consegui compreender que esta  é a medicina que realmente cura, pois cura o Homem de uma maneira integral”, concluiu.

LEGADO PARA HOMEOPATIA

LEGADO PARA HOMEOPATIA 
 A BIOGRAFIA DE UM INCANSÁVEL LUTADOR
 

O mestre Javier Salvador Gamarra foi um dos alunos da turma da Associação Paulista de Homeopatia (turma 1973), sob a batuta do mestre argentino Dr Francisco Xavier Eizayaga. Desse núcleo de alunos brasileiros surgiu o grupo de principais médicos homeopatas que ajudaram no processo de retomada da homeopatia no país, e, especialmente de sua institucionalização nas décadas 1970-1980. A partir de sua formação como homeopata na mão de um dos maiores mestres argentinos e mundiais, Dr. Gamarra passou a atuar, com destaque crescente na homeopatia, no começo ainda enfrentando as dificuldades pelo fato do modelo de saúde ser fortemente questionado pela medicina oficial. Mas ele nunca se furtou ao debate, ao enfrentamento e a responder quando questionado sobre o porquê ser homeopata.
Homeopatia era para ele uma Doutrina e uma Missão levando sempre isso no coração, até os últimos instantes de sua vida. Teve destaque em suas participações em congressos, encontros, simpósios, jornadas, debates, defendendo a visão integral sobre o ser humano em sofrimento e o unicismo preconizado por Samuel Hahnemann ( criador da homeopatia).
Em 1976  mestre Gamarra e  com outros médicos paranaenses pioneiros fundaram a Associação Médica Homeopática do Paraná (AMHPR)  que passou a oferecer curso de formação para médicos inicialmente. Em 1979,  trouxe da Argentina o farmacêutico Arturo Méndez, um dos maiores farmacêuticos homeopatas, com o qual passou a oferecer o primeiro curso de homeopatia para farmacêuticos do país. A vinda de Méndez  ajudou a introduzir o Método do Fluxo Contínuo, do qual Dr Gamarra era um dos principais prescritores no Brasil e a ampliar a divulgação, estudo e uso da  cinquenta-milesimal hahnemanniana, até então pouco conhecida no país.
Nos anos seguintes ajudou na formação de médicos veterinários e odontólogos homeopatas criando uma a abertura de espaço a essas profissões dentro da Homeopatia brasileira. Com esse cenário ativo no Paraná e sul do Brasil também ampliou sua participação no cenário nacional, estando em permanente contato e integração com os principais homeopatas e simpatizantes da homeopatia daquele momento. Isso trouxe, como consequência natural, seu envolvimento com o grupo que trabalhou com a agenda de politização do debate sobre a inserção da Homeopatia como Especialidade Médica, na segunda metade da década de 1970 até o auge desse processo, no ano de 1980. Nesse ano, a Homeopatia foi reconhecida como tal inicialmente pela Associação Médica Brasileira – AMB e depois a demanda entrou na  auta do plenário do Conselho Federal de Medicina, que a aprovou por meio da Resolução 1000/1980. Nesse momento, Dr. Gamarra era o primeiro presidente, além de um dos fundadores da recém-criada Associação Médica Homeopática Brasileira, AMHB, principal entidade homeopática do Brasil desde então, que iniciou suas atividades justamente em 1980. Além disso, participou ativamente da Liga Médica Homeopática Internacional (LMHI), da qual foi vice-presidente para o Brasil, ajudando a aumentar a presença internacional da homeopatia brasileira. Em 1994-1995 desenvolve a Escala SD, primeira escala de dinamização homeopática proposta desde as inovações técnicas do Fluxo Contínuo, no final do século XIX. Essa escala acendeu forte polêmica na homeopatia brasileira, mas também incentivou novos debates sobre inovação e pesquisa em homeopatia no país. Neste momento ela se encontra em uso em várias partes do país em forma de prescrição magistral.
A síntese da sua  contribuição para a homeopatia brasileira: contribuições decisivas no ensino e institucionalização da Homeopatia no Brasil, primeiro na área médica, depois na farmacêutica, médico veterinária e odontológica; foi responsável pelo início de vários cursos para ensino da homeopatia em vários estados brasileiros além do Paraná, incentivo à inserção do Método do Fluxo Contínuo no país; maior divulgação, estudo e emprego da LM de Hahnemann; criação da Escala SD; trouxe diversos homeopatas de destaque no cenário internacional para cursos, palestras, eventos no Brasil ( Eugênio Candegabe, Masi Elizalde, Micaela Moisé, David Flores Toledo, Arturo Méndez e Juan Schaffer), mais recentemente diversos médicos indianos; acolheu em sua escola de ensino e em seu consultório médico privado diversos médicos aprendizes de Curitiba, do Estado, de outras partes do país além de outros países, como Costa Rica, Suíça e Colômbia, para aprenderem homeopatia no dia a dia, fazendo clínica; atendeu em sistema ambulatorial gratuito ou com pagamento simbólico (na AMHPR, na FEMHPR, na Escola de Homeopatia de Curitiba) pois grande número de pacientes não podia custear uma consulta em valores de mercado  e muitas vezes atendeu em seu consultório privado gratuitamente.
Dedicou sua vida inteira de médico à Homeopatia brasileira e internacional. Se hoje a Homeopatia neste país se encontra em um cenário mais estável, institucionalizada, com milhares de médicos praticantes, milhares de outros profissionais atuando (farmacêuticos, médicos veterinários, odontólogos) deve-se muito disto ao mestre Gamarra. Criou uma das primeiras escolas de formação de homeopatas no Brasil (a terceira, para ser mais preciso – AMHPR), além disso, criou, pioneiramente, o primeiro curso de homeopatia para farmacêuticos no Brasil (também na AMHPR –1979). Sua forma de ver a homeopatia, fortemente vinculada à praticada por Hahnemann, se difundiu por meio de seus alunos, discípulos, simpatizantes, amigos e colegas. A Homeopatia brasileira se fortaleceu com a contribuição do Dr. Gamarra, que  contribuiu para torná-la diferente, mais robusta, dinâmica, acolhedora e humanizada.

Dr Javier Gamarra em momentos de homenagem,aprendizagem e descontração nas atividades de AMHPR.